OLYMPIO - LITERATURA E ARTE

Não há o que não haja. Sob a inspiração deste mote provocador, quatro mineiros se uniram, nos últimos meses, para imaginar, planejar e editar a revista literária Olympio, retomando a tradição do estado na produção de revistas do gênero. Com 96 páginas de farto conteúdo inédito, design de encher os olhos e disposição para valorizar a palavra como “protagonista” de seu tempo, como diz o primeiro editorial, a publicação será lançada no próximo sábado, dia 19, das 11h às 15h, na Livraria da Rua, em Belo Horizonte.

Olympio é uma revista literária independente, tendo à frente a escritora e ensaísta Maria Esther Maciel – idealizadora da iniciativa -, o jornalista José Eduardo Gonçalves, o arquiteto Maurício Meirelles e o designer Júlio Abreu, todos com inserções literárias e longa trajetória na cena cultural da cidade. A revista enfatiza a produção ficcional, poética e ensaística contemporânea, incluindo ainda perfis e entrevistas, tradução de textos literários, relatos de viagem, ensaios visuais e fotográficos. “Temos como eixo editorial a ideia da transversalidade, reconhecendo as conexões da literatura com outros campos artísticos”, diz Maria Esther.

A primeira edição

Atenta à polifonia de vozes que ecoam no país e no mundo, a revista traz um cardápio alentado em seu primeiro número: textos inéditos de J.M.Coetzee e Georges Perec; entrevista com Silviano Santiago e os trechos iniciais das memórias que este autor vem escrevendo para publicar em 2019, pela Companhia das Letras; perfil da fotógrafa Maureen Bisilliat e ensaios de Eliane Robert Moraes, Maria Angélica Melendi e Iris Montero; poemas e ficções de autores diversos; ensaio fotográfico de Eustáquio Neves e ensaios visuais de Leonora Weissmann e Julia Panadés. E mais: Olympiorevisita o percurso do contista Francisco de Morais Mendes e garimpa o acervo do escritor e ensaísta Eduardo Frieiro (1889-1982), sob a guarda da Academia Mineira de Letras. Colaboram com a revista nomes como José Castello, Joselia Aguiar, Paulo Henriques Britto, Noemi Jaffe e Joca Reiners Terron.

“A revista tem como marca a pluralidade dos autores, mesclando linguagens, nacionalidades e gêneros narrativos, o que resulta numa publicação de grande potência literária”, afirma José Eduardo Gonçalves, editor executivo. Essa multiplicidade de olhares, característica desejada pelos editores da revista, não será assegurada apenas pela participação de autores de várias partes do Brasil e do mundo, como se vê na primeira edição. A busca de nomes e temas, a troca de ideias e o compartilhamento de informações contam com a contribuição de um Conselho Editorial que tem representantes de várias regiões e sotaques brasileiros, bem como de intelectuais e escritores de Angola, Argentina, Estados Unidos, México e Portugal.

Olympio será vendida nas principais livrarias do país e também em Portugal, tendo já lançamento previsto em Lisboa no dia 07 de junho, na centenária Livraria Ferin, no Chiado.

Tradição renovada

Há um bom tempo Minas Gerais andava ausente deste mercado. Para o escritor Silviano Santiago, “esse trabalho editorial, quase inédito em termos das últimas décadas, garante o retorno de Minas ao mapa literário contemporâneo”. A tradição literária é forte especialmente na capital, Belo Horizonte.

A cidade mal havia nascido e já em 1901 e 1902 registra a existência, ainda que breve, das revistas Minas Artística e Horus, respectivamente. As décadas seguintes foram pródigas em publicações. Nos anos 20, Drummond dirigiu A Revista, que durou três números, e o jornal Estado de Minas editou o suplemento Leite Criôlo. Em 1946 surgiu a revista Edifício, que reuniu a geração de Francisco Iglesias, Sábato Magaldi e Autran Dourado. Um ano depois Hélio Pellegrino criou a revista Nenhum, que não saiu do primeiro número. Nos anos 50 surgiram as revistas Vocação, Tendência eComplemento. Os anos 60 viram surgir a revista Estória, que durou seis edições. A década de 70 registrou um forte movimento de resistência, com o aparecimento (e quase sempre o precoce fechamento) de revistas como a Bel’Contos, Silêncio, Circus e Inéditos. De lá para cá a cena editorial literária minguou (a revista Palavra, editada entre 1999 e 2000, era dedicada à cultura em geral). A se destacar apenas a respeitável continuidade, até os dias de hoje, do Suplemento Literário de Minas Gerais, fundado por Murilo Rubião em 1966.

Os editores

JOSÉ EDUARDO GONÇALVES é jornalista, editor e escritor. Autor do romance Vertigem (Record, 2003), organizou o livro Ofício da Palavra (Autêntica, 2014), ganhador do Prêmio Cecília Meireles 2015 de Melhor Livro Teórico, da FNLIJ. Foi editor da revista de cultura Palavra.

JÚLIO ABREU, formado em Letras e Design Gráfico, doutorando no CEFET-MG, publicou o livro de poemas Jogo das horas (Scriptum, 2015) e o fotolivroDentro da faixa (Scriptum, 2017). Dirige, com Leonora Weissmann, a Jiló Design.

MARIA ESTHER MACIEL é escritora, crítica literária e professora de Literatura Comparada na UFMG. Publicou 14 livros, entre eles, Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2015) e O livro dos nomes (Companhia das Letras, 2008).

MAURÍCIO MEIRELLES, natural de Belo Horizonte, é arquiteto e escritor. Seu livro Birigüi (Miguilim, 2016) foi finalista do 59º. Prêmio Jabuti (2017) e integra a coleção The White Ravens, da Internationale Jugendbibliothek de Munique, Alemanha.

Foto: Leonora Weissmann